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Arte do dia · 1 de outubro de 2026

As Rosas de Heliogábalo

As pétalas de rosa são belas porque o perigo não é visível de início.

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Convidados de um banquete romano desaparecem sob uma cascata de pétalas de rosa cor-de-rosa, enquanto figuras reclinadas observam por cima
Artista
Lawrence Alma-Tadema
Data
1888
Técnica
Óleo sobre tela
Fonte
Historia Augusta

O prazer transforma-se em castigo

No plano superior, o jovem imperador reclina-se sob uma estátua de bronze de Dionísio. Em baixo, os convidados debatem-se ou desaparecem sob as pétalas libertadas de um teto falso. Alma-Tadema adia a violência: o mármore, a prata, os tecidos e as flores oferecem, primeiro, o luxo polido que se espera da sua Roma antiga imaginada.

Uma história antiga com bases frágeis

O episódio deriva da Historia Augusta, uma coletânea de biografias imperiais escrita muito depois dos acontecimentos e conhecida pelas suas invenções. O texto refere que as vítimas foram sufocadas com violetas e outras flores. Alma-Tadema escolheu rosas, intensificando a cor, a abundância e o contraste entre a beleza e a crueldade.

A arqueologia ao serviço do teatro

Alma-Tadema estudou de perto objetos e arquitetura antigos, combinando-os depois livremente para criar cenas persuasivas. Diz-se que as variedades de rosas representadas lhe foram fornecidas durante uma sessão de trabalho no inverno, para que pudesse observar pétalas frescas. O rigor do detalhe torna tangível esta chuva impossível, enquanto a composição nos deixa reparar, aos poucos, no seu horror.

A beleza torna-se instrumento de perigo

As pétalas de rosa parecem, à primeira vista, de um luxo impossível. A sua massa cor-de-rosa pálido preenche o primeiro plano, capta a luz e ecoa a arquitetura de mármore. Só aos poucos rostos, mãos e corpos tombados revelam o que se passa sob elas. Alma-Tadema faz com que esse reconhecimento chegue tarde, de modo que a atração da superfície pintada passe a fazer parte da crueldade.

A história provém de um relato antigo cuja fiabilidade é discutível, e a reputação do imperador foi moldada por autores posteriores hostis. O quadro não constitui, portanto, uma visão documental de Roma. É antes um espetáculo oitocentista construído a partir de investigação arqueológica, imaginação teatral e um texto sensacionalista. Olhar para ele de forma crítica não anula o seu virtuosismo técnico: explica antes por que razão um detalhe histórico tão polido consegue conferir autoridade a um episódio inventado.

Fontes e leituras adicionais